terça-feira, julho 24, 2007

UM DIA DIFERENTE

Hoje, o meu dia foi igual ao de ontem. Levantei-me, arranjei-me, fui trabalhar (para o meu gulagzinho de estimação) e às 17:15 pus-me a andar (porque não me pagam horas extraórdinárias nem o suficiente para aturar gente estúpida independentemente da falta de mão-de-obra que por lá grassa). Até aqui, tudo bem.

Cheguei a casa, instalei-me no sofá, pratiquei zapping e quando me aborreci fui ler ("Os Guardiães da Noite" de Serguei Lukianenko. Um livro interssante, de estilo neo-gótico que faz parte do meu tipo de leitura. Enfim... há quem goste da Margarida não-sei-das-quantas, eu gosto mais de coisas góticas e neo-góticas). Quando voltei a pousar o livro deviam ser para aí umas 19:45, tinha acabado de me levantar quando, de repente, ouço uma travagem brusca e depois um grande "POK" (aqui nesta zona da cidade acontece muitas vezes). Como bom português que sou corri logo para a janela para ver onde é que se tinham espetado. Meti a cabecita de fora e primeiro que conseguisse fazer algum sentido daquela cena macabra que se estendia à minha frente, demorou algum tempo.

A primeira coisa que vi foi um carro preto pequeno, não sei de que marca, parado mais ou menos a meio da estrada. Depois, comecei a procurar o outro carro onde assumi que esse carro preto tinha batido mas, não encontrei nenhum. A segunda coisa que vi foi, uns metros mais à frente desse carro, uma carrinha da volvo parado mais à frente com o para-choques caído. Pela minha lógica, aquele acidente estava todo errado. O carro preto, que estava atrás, não estava danificado e o carro verde que estava à frente tinha o para-choques caído quando não havia mais nenhum carro à sua frente.

É claro que o cenário transforma-se em algo muito mais grotesco quando do lado direito, no passeio, poucos metros mais à frente da passagem de peões, vi que estava uma cadeira de rodas toda retorcida e à frente do carro verde estavam, caídas no chão, duas pessoas. A da cadeira de rodas e a que a empurrava. Aquelas duas pessoas foram atropeladas quando passavam numa passagem de peões, com o sinal verde para o peões. O impacto foi tanto pior quando me apercebi de que as pessoas que ali estavam estendidas eram meus vizinhos. Um casal de senhores já com alguma idade que todos os fins de tarde saiem para passear um pouco. O senhor, na sua cadeirinha de rodas e a sua senhora a acompanhá-lo. Muito simpáticos, já os apanhei no elevador algumas vezes e, normalmente, nunca lá podia entrar porque os elevadores não são muito grandes.

Foi horrível.

A senhora esteve insconsciente durante alguns minutos, mas acabou por se conseguir levantar com a ajuda das outras pessoas (que entretanto ali se juntaram) . Houve um outro senhor que se acercou do marido e ficou com ele até chegarem os médicos do INEM, não sei se estava consciente. O INEM demorou 5 minutos a chegar, a polícia cerca de 20 minutos e o caos no trânsito generalizou-se.

Por breves instantes, pensei em tirar uma fotografia e colocá-la no blog. Felizmente, o meu sentido de decoro falou muito mais alto (berrou mesmo) mas, o mesmo não posso dizer de outros. No meio daquela confusão toda, é claro que a polícia fechou o trânsito na avenida e não deixava os carros passar para o outro lado. Então não é que uma criaturinha imbecil ainda foi reclamar com o polícia - Pasmem! - porque este não a deixou estacionar o seu carrinho em frente ao seu prédio (que por acaso ficava mesmo em frente ao local do acidente) . Quer dizer, estava a ambulância do INEM, o carro do INEM, o carro que atropelou os senhores, os médicos e os paramédicos a tentarem estabelizar o senhor para o poderem tirar dali e aquela criaturinha alada a implicar com o bófia porque ele não a tinha deixado estacionar a sua viatura em frente a casa!

Digo-vos... naquele momento tive aquilo a que os americanos chamam "an epiphany" e que foi «Se tiveres que dar um entoxe a alguém, não te retraias. Podes não ter outra oportunidade». Para o bem e para o mal, é mesmo isso. Carpe Diem! Mesmo que isso signifique atirar uma cadeira à cabeça de alguém. Neste caso em concreto, fiquei com pena de não ter, aqui em casa, aqueles balões de água, caso contrário aquela gaja tinha tomado um valente banho. Calhando, até é uma atitude um bocado infantil. Paciência! Não estão sempre a dizer que se deve libertar a criança que há em nós? Era uma libertação e tanto.

Amanhã vou ver se consigo descobrir como estão os senhores.

4 comentários:

Massano Cardoso disse...

Espero que não tenham ficado muito feridos.
Quanto à "outra", se a vir, dê-lhe uma valente bofetada. É um crime de ofensas corporais, bem sei, mas às vezes apetece-me cometer um "crimezito". É o meu lado violento a vir ao de cima...

Anthrax disse...

Mmmm... não sei professor... os médicos do INEM levaram algum tempo a estabelizar o senhor da cadeira de rodas mas, também não sei se isso faz parte dos procedimentos normais uma vez que a vítima já tinha lesões anteriores ao acidente. Assim, parece-me lógico que toda aquela operação levasse mais tempo a concretizar mas, não sei avaliar isso.

Hoje à tarde já devo saber como estão os senhores.

Quanto à "outra", crime de ofensas corporais ou não, devia mesmo ter levado um valente de um tabefe. Há coisas que não se fazem e aquilo que ela fez é uma delas.

João Melo disse...

subscrevo o comentário do professor massano!

Virus disse...

Ahhh... Que saudades de uma PSG1 e do ACOG 4x32... Nem sabia de onde caíam... Era a justiça divina...